sábado, 10 de outubro de 2009

Lá na terra dos broncos, ela menina-mulher não se deixa abater, mas um dia a força do sujo e seus desejos a possuíram. Em seus seios uma marca de guerra foi deixada, com peitos nus e marcados ela caminhou.

Chegou a uma rameira falante que a amavelmente a socorreu, dizia-a que entendia suas dores, entretanto a pobre coitada nada sabia sobre Bianca, assim perdida levou-a ao vilarejo que a menina-mulher freqüentava, lá elas encontraram um nobre infante que friamente a socorreu.

Nem ele compreendeu seu coração que sempre foi gélido palpitava no ritmo do choro de Bianca, seu desejo de proteção e seu estranho afeto tornaram-se medo e culpa. Sua alma banhada de vergonha fez menos do que poderia, porem conseguiu resguardar a idéia de honra que todos e nem todos possuíam dela.

Feridos, O Nobre-Infante e A Menina-Mulher se olharam, tentaram, mas não conseguiram sorrir, sem abraço ou despedida. Eles dormiram pra tentar esquecer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Matadora

Renegar seria mais uma maneira de ser ela mesma, porém não lhe era interessante ser a mesma pessoa que era desde sempre. E com essa perfeição de querer ser quem não lhe é e conseqüentemente não caber no próprio peito, desafiou os limites da barreira dos próprios limites.
Arrebentou os botões da camisa e com a raiva de sua nova personalidade colocou abaixo a parede de sua consciência de bem e mal. Por segundos de violência e invasão de sua outra mulher que um dia fora, ela havia morrido. Depois de anos enclausurada ela havia morrido pelo seu "eu" desconhecido, depois disso soube que a chamada liberdade da outra face dela mesma também a matava.


Bianca Burnier

sábado, 19 de setembro de 2009

A Sobriedade das Cores

Na esperança de que algo causasse estranheza ao que sentia, abriu a gaveta do armário e logo de primeira conseguiu identificar o objeto que a faria melhor. Analisou por alguns instantes a forma insegura e pensou no espaço em que ocuparia em seu corpo caso resolvesse engolir tudo de uma única vez.
Em poucos passos alcançou a janela e olhou para baixo ainda segurando o frasco. Tentou agarrar com a mão que lhe sobrara um pouco de ar para levar aos pulmões, como fazia ainda menina e ficou a pensar se não era o ar que abraçaria sua mão e não ela e sua tentativa anterior.
Olhou ao redor e viu as paredes do apartamento muito bem pintadas com cores sóbrias e por instantes o objeto que carregava consigo desequilibrou a sobriedade das paredes, infligindo uma espécie de nova regra ao espaço.
Retornou a gaveta do armário, abriu, e logo de primeira conseguiu identificar o objeto que a faria melhor. Como se previsse o próximo passo pensou que o ar faria bem para seus pulmões e com a mão que lhe sobrara agarrou sobriamente a outra mão, olhou para baixo e pensou no espaço em que ocuparia em seu corpo caso resolvesse engolir todo o ar de uma única vez.
Logo encontrou as paredes dentro do frasco e em longos passos alcançou o ar sóbrio que adentrava no apartamento e fazia com que suas mãos ficassem nervosas, respirou o desequilíbrio para seus pulmões e o seu rosto bem pintado causou estranheza ao se olhar na janela, e como se ainda fosse menina olhou para baixo agarrada ao frasco e desequilibrando as nuvens infligiu uma nova regra ao apartamento.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Aquele corpo contra o seu transmitia algo distinto, que chegou a chamar de amor por um instante, sacudindo então sua cabeça como que para espantar uma idéia errada. Parou por um momento, concentrando-se apenas em gravar a sensação para poder mais tarde recordar-se. Se não memorizasse cuidadosamente tudo o que sentia, um dia não lembraria mais do que se passou com seu coraçãozinho pequeno, e quando não se lembra o que se sente, não se lembra o que se é.
- "Porque ser humano é ser sentimento", suspirou, num som imperceptível aos ouvidos do outro.


...



E naquela tarde, ao ouvir o som que saía dos lábios alheios formando as palavras "eu te amo", não soube reagir; receou passar a impressão errada, teve medo de parecer indiferente diante de tais palavras. Mas o problema não era indiferença, ou a não-correspondência daquele sentimento - é que sempre temera essa declaração. Tinha a impressão de que, nomeando aquilo que sentia de Amor, transmitiria uma certa prepotência: quem era ela, para conceituar esse tal de Amor?
Reparando na expressão aflita que se formava no rosto daquele que ousou fazê-lo, apressou-se em tentar explicar que aquilo que sentia não era de menor importância, veracidade ou magnitude:
- "Ah, sentimento não tem nome. Amor não tem nome, também, é só apelido."

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Seria inviável desfazer o que por anos ela havia feito. A marca do corpo de fulana ainda pulsava nos lençóis, percebiam-se até mesmo os traços de sua personalidade.
Desde sua saída ou partida, sabe-se lá que cantos freqüenta no mundo, porém era possível imaginar sua arrogância ao contar a história de que havia partido, e o outro, ainda morrendo de amores, mantinha a marca de seu corpo intacto em trapos velhos, para relembrar os tempos em que ela era a única coisa feliz de sua vida.
O cheiro agora impregnava o quarto, à marca no lençol, não mais se bastava apenas ficar imóvel e ser admirada pelo outro, de forma que o cheiro da outra era tão forte e real, que ele aturdido deixou de dormir no quarto com o lençol e a marca.
No início, por estar temeroso havia adquirido o hábito de trancar a porta do quarto toda vez que se fazia necessário sair da casa, fazia isso para que a marca e o cheiro não fugissem novamente como fizera sua dona e pensava satisfeito que simplesmente não precisaria dela para tê-la para si.
Para se manter próximo, não é preciso alterar-se a forma, pois a essência é fruto de um tempo, por sermos um tempo vivido, lutar contra a forma do lençol é querer retirar sua essência temporal. No dia em que acordou e viu a marca intacta, deu-se conta de que ela ficaria eternamente no espaço fixado para ela por ele, e como se ele esperasse uma resposta começou a destruir o quarto, nesse devaneio gritava o nome dela como se estivesse evocando uma parte morta de seu corpo. O cheiro cada vez mais forte aguçava a loucura do outro, despertava uma fúria do seu antepassado que lutou contra os chimangos na cidade de Seival em 1836. Por fim, visto que a marca estava morta, despiu-se calorosamente e como se estivesse abraçando pela primeira vez aquela forma insegura, porém bem definida acabou com o espaço que havia entre a marca imóvel e o seu próprio corpo.

Bianca Burnier