Seria inviável desfazer o que por anos ela havia feito. A marca do corpo de fulana ainda pulsava nos lençóis, percebiam-se até mesmo os traços de sua personalidade.
Desde sua saída ou partida, sabe-se lá que cantos freqüenta no mundo, porém era possível imaginar sua arrogância ao contar a história de que havia partido, e o outro, ainda morrendo de amores, mantinha a marca de seu corpo intacto em trapos velhos, para relembrar os tempos em que ela era a única coisa feliz de sua vida.
O cheiro agora impregnava o quarto, à marca no lençol, não mais se bastava apenas ficar imóvel e ser admirada pelo outro, de forma que o cheiro da outra era tão forte e real, que ele aturdido deixou de dormir no quarto com o lençol e a marca.
No início, por estar temeroso havia adquirido o hábito de trancar a porta do quarto toda vez que se fazia necessário sair da casa, fazia isso para que a marca e o cheiro não fugissem novamente como fizera sua dona e pensava satisfeito que simplesmente não precisaria dela para tê-la para si.
Para se manter próximo, não é preciso alterar-se a forma, pois a essência é fruto de um tempo, por sermos um tempo vivido, lutar contra a forma do lençol é querer retirar sua essência temporal. No dia em que acordou e viu a marca intacta, deu-se conta de que ela ficaria eternamente no espaço fixado para ela por ele, e como se ele esperasse uma resposta começou a destruir o quarto, nesse devaneio gritava o nome dela como se estivesse evocando uma parte morta de seu corpo. O cheiro cada vez mais forte aguçava a loucura do outro, despertava uma fúria do seu antepassado que lutou contra os chimangos na cidade de Seival em 1836. Por fim, visto que a marca estava morta, despiu-se calorosamente e como se estivesse abraçando pela primeira vez aquela forma insegura, porém bem definida acabou com o espaço que havia entre a marca imóvel e o seu próprio corpo.
Bianca Burnier