terça-feira, dezembro 02, 2008

Terceira Lição

Ela toda noite podia jurar ouvir barulhos. Cada noite o barulho se fazia ouvir mais e mais alto, e ela já estava a imaginar monstros ou algum dos personagens dos seus pesadelos pueris. Mas permaneça (?) calmo, bom (?) leitor, este conto que lhe salta às vistas, apesar do visual escuro em que se encontra, não é um conto de terror. Na realidade é o oposto disso, como se verá. De volta ao ponto em que deixamos a garota sozinha no quarto (e ainda bem que ela não o soube, pois o pavor agravaria), os pais viajaram: péssima hora para um monstro do armário surgir. Já ouvia aquele barulho há umas duas semanas pelo menos, e se algo fosse surgir, que esperasse mais uns dias.
Dormiu, enfim. Ou não. Não saberá dizer amanhã.

Uma sombra se esgueira pelo carpete e alcança os lençois estampados de figuras da Betty Boop. Sobe, arrasta-se pela cama, num movimento quase sexual, mas apenas para tocar-lhe o rosto. Como se pudesse sentir tátilmente a sombra, ela abre os olhos e com estes encontra o demônio que se põe de pé no centro do quarto, sério, ou ao menos é o que pode-se ver da boca sob o farto bigode. Leva na mão um exagerado guarda-chuva, apesar de lá fora estar seco o tempo. Ele não espera que ela diga nada, mas fica em silêncio ainda alguns momentos. Depois, fala.

"Hei de dizer-te, criança, a sabedoria que poucos têm. Sabes que um velho sábio percorreu toda a extensão do mundo antes de poder alcançar este conhecimento? Mas, observa, to darei em alguns poucos segundos. Pois saiba que esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!"

Fala essas exatas palavras, depois espera a reação da menina enfiada nas camisolas.
Ela a princípio sente vontade de amaldiçoá-lo, por proferir tais amargas palavras. Sente-se presa, atrelada a um universo inútil: perde a vida o sentido no momento em que perde a vida a aleatoriedade. Só há um caminho!
Mas logo ela, ainda imóvel, observada pela figura ainda também imóvel de guarda-chuva na mão, percebe o que veio lhe dizer o demônio por debaixo daqueles bigodes. Sorri.

Acordará, no dia seguinte, e não saberá dizer se dormira ou não, não saberá se sonhara ou não. O fato é que o barulho à noite cessará no quarto, mas permanecerá ainda nela. A partir de amanhã, a garota, diante de tudo e de qualquer coisa perguntará "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?".

A partir de amanhã, ela viverá.

10 comentários:

Daniel disse...

Desculpe a demora, Chay.
Não era desfeita, só falta de comprometimento.. Mas ah, este ainda há. ^^

Ferreira, Lai disse...

Posso dizer que esse foi bem poético?
=}

Ferreira, Lai disse...

(Sei lá, por mais que seja do Daniel, tenho medo de que a Chaay condene toda e qualquer menção à poesia em seu blog.
Brinks. Eu acho)

Chay disse...

ueheuhuehe
Não condeno não, só condeno quando vocês cismam em dizer que eu sou poética.

Eu li isso quando toamva café da manhã e reparei que trocaram a fonte.
e ainda não sei o que comentar, continuo refletindo acerca.

Mas sim, tá lindo, lindo. E foi a lição de ampulheta que eu mais entendi até agora.

Daniel disse...

Hauhauhauha.. Não atribuam a genialidade a mim: grande parte do texto é cópia. Mas qual texto não é, certo?

Hum, a fonte fui eu que mudei, mas só nesse meu post, não mexi no layout não. Eu gosto de Verdana. Gosto de Arial também, mas gosto mais da Verdana.


E se liga, as outras duas lições são só condições de possibilidade pra essa. No fundo, são uma lição só. ^^




Hum.. Poético?
Acho que estamos chegando a um ponto onde será necessário definir o que é algo "poético"..
Mas talvez seja só coisa de filósofo.

: D

Ferreira, Lai disse...

Não vou definir nada.

Daniel disse...

Você é muito pouco filosófica, Lai. Além do quê, ninguem pediu pra você definir, então relaxe! ; )


Eu lembrei agora de uma vez que tava ouvindo uma moça falar sobre o texto dela com meu orientador lá na faculdade, o diálogo foi tipo assim:

"É, eu acho que o meu texto tá muito poético, né?"

"Não, não está não. Se ele estivesse poético, ia dizer muita coisa em muito menos espaço."




Mas longe de mim querer definir o que é poético. Não é tão necessário assim, pensando bem. ^^

Ferreira, Lai disse...

euri

Daniel disse...

re re

eu também!

Daniel disse...

OBS: Chay, você me deve uma ampulheta, como o prometido. Espero que não tenha esquecido.

; )